sexta-feira, 16 de junho de 2017

Romântico

Tua falsidade, amor,
é comovente!


Warley Matias de Souza.

Utopia

Enquanto não houver igualdade, 
meu bem, haverá luta de classes.
Paz sem igualdade é bruta utopia.


Warley Matias de Souza.

Sem maquiagem

Se pegar o ônibus ou o metrô,
entre 5 e 7 da manhã,
verá, diante de si,
a mais pungente dor existencial.


Warley Matias de Souza.

Um esnobe

Me dizem você é esnobe,
anda sempre de óculos escuros
e tem o nariz em pé.

Tenho o nariz em pé
desde a primeira bofetada,
questão de sobrevivência.

Já os óculos escuros,
são mais que esnobismo:
necessidade,
olhos sensíveis à luz.


Warley Matias de Souza.

Os dançarinos

Sara deslizou-se sobre o espaço, roçou as mãos do outro dançarino. Esticou um dos braços, em um movimento doloroso; mas estava concentrada demais para deixar a dor cicatrizar seu rosto. Aproximou-se do outro dançarino, em movimento sincronizado; mas seus corpos não se tocaram. Sustentando-se sobre apenas uma perna, desafiou a gravidade ao movimentar parte do tronco para a frente, seguido de recuo teatral que reproduzia o soco. Caiu sobre o chão, em movimento calculado. Em torno dela, o outro dançarino ocupava o espaço em circularidades dramáticas, enquanto o público se perdia no tempo e no espaço, e buscava na arte a necessária incompreensão.

Warley Matias de Souza.

domingo, 30 de abril de 2017

Rebeldia

a vida é repleta de pequenas aceitações
aceitar o próprio corpo é uma delas
e há também a grande aceitação:
a morte inevitável desse corpo.


Warley Matias de Souza.

Marginais

amor é palavra banal para definir o que sentimos
os outros amam, não tenho dúvida
nós temos esta coisa, só nossa, inigual.


Warley Matias de Souza.

Almas gêmeas

já encontrei milhares delas
hoje mesmo, já descobri umas cinco
e olha que são apenas nove horas da manhã

o amor existe porque meu pau existe


Warley Matias de Souza.

sábado, 22 de abril de 2017

Outono trans

Durante a tarde
o outono se travestiu de inverno
nuvens cinzentas e melancólicas
cobriram o céu
desta cidade-cu.


Warley Matias de Souza.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

O outro

Se eu tivesse outra vida,
eu seria outro,
teria outros amigos,
outros inimigos também.
Moraria em outro lugar,
teria outra família,
outros hobbies,
outros medos,
outras angústias,
outros saberes,
outros desejos,
outros sonhos e doenças.
Meu mundo seria outro.
Meus olhos seriam outros.
Meu corpo, um outro
que pulsaria outramente
e desejaria,
assim como eu,
ser um outro.


Warley Matias de Souza.

terça-feira, 21 de março de 2017

Longe de mim

Olhei longe pela janela
depois me olhei
bem perto de mim
e concluí, assombrado:
esta não era a minha vida


Warley Matias de Souza.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Agentes literários

Para Mateus Cunha.

O leitor é um deus
O acadêmico, um demônio
O poeta, um cara louco aí
        aquele imoral!


Warley Matias de Souza.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Meu lado esquerdo

Meu lado direito
usa camisinha
e protetor solar,
evita excesso de açúcar
e gordura,
dorme de seis a oito horas
por dia,
bebe muita água,
pratica exercícios físicos,
tem parceiro fixo,
é um filho exemplar,
trabalha oito horas
por dia,
não possui dívidas,
não fala palavrão
e ajuda o próximo.

Meu lado esquerdo
apenas vive,
inconsequentemente,
e dizem até que é feliz.


Warley Matias de Souza.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Artista

Não tenho documento
Não tenho dinheiro
Não tenho futuro
Não tenho pai rico
Nem carro do ano

Não tenho namorado
Não tenho casa
Não tenho vergonha
Não tenho medo
De morrer

Só tenho o verbo
Engasgado na garganta
E este gosto amargo na boca


Warley Matias de Souza.

domingo, 29 de janeiro de 2017

Olhos abertos

Imagine a mulher mais feia que existe
Imagine que essa mulher também é triste
Imagine essa mulher feia, triste e sofrida
Imagine que essa mulher é a vida


Warley Matias de Souza.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Um título

Manual pedagógico sobre a arte de dizer o óbvio sem que ninguém perceba.


Warley Matias de Souza.

Barril de pólvora

Elite alienada
Desigualdade social
Fanatismo religioso
Irã
Brasil

Warley Matias de Souza.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Apesar da guilhotina

Eu batia um papo com Lavoisier, enquanto tomávamos infinitas porções de sorvete de morango, quando ele falou, completamente filosófico: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Então, entendi que sempre estive aqui e que sempre aqui estarei.


Warley Matias de Souza.

Apareceu na TV

Querida nutricionista,
enquanto você falar de comida
como se ela fosse remédio,
ou veneno,
ninguém vai te respeitar.


Warley Matias de Souza.

domingo, 22 de janeiro de 2017

A estética brega

A estética brega é menosprezada porque é pobre, porque é do pobre. Não tem abundância intelectual ou material: mínimo em repetição. Não é sofisticada, não tem pensamento ou estrutura complexos: mínimo em repetição. O sucesso do brega é sucesso do pobre. A visibilidade do brega é visibilidade do pobre: mínimo em repetição. O brega é alienante, sem saber que é também ato político paradoxal. O brega é a cara do pobre: mínimo em repetição. O brega incomoda os olhos e os ouvidos tão delicados dos afetados que não admitem a verdade. A estética brega é incômodo inconsciente de ser: mínimo em repetição.


Warley Matias de Souza.

dostoievskiano

metade de mim não sou eu
é um outro
metade das minhas histórias não é minha
é de um outro
metade dos meus desejos não é minha
é de um outro
metade das minhas lutas não é minha
é de um outro
metade dos meus amores não é minha
é de um outro
metade dos meus medos não é minha
é de um outro
metade das minhas lágrimas não é minha
é de um outro
metade dos meus sorrisos não é minha
é de um outro

vivo no país de um outro
vivo na cidade de um outro
vivo na casa de um outro
vivo no corpo de um outro
vivo o destino de um outro

só quando deliro sou completo
sou eu mesmo
e não preciso mais esperar por mim


Warley Matias de Souza.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Romântico

Bato punheta como o gordo que come sem ter fome ou o suicida que não sabe onde está a morte.
Vício.
Esperança talvez de reencontrar o encanto perdido.


Warley Matias de Souza.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

sábado, 14 de janeiro de 2017

sublime!

escreveu algumas palavras num papel:
algo sobre humanidade e compaixão.
comparou o olhar  triste de um ator
ao silêncio de uma criança.
falou da verdade invisível ali
e achou tudo assim tão banal!
amassou o papel e jogou-o fora.

uma daquelas almas sorrateiras,
que remexem os lixos alheios,
em busca de alguma verdade qualquer,
publicou os versos inconfessáveis.

as palavras chochas tomaram ar de fidalguia,
ficaram cult,
com direito a champanhe, caviar e pincenê.

charmante, mon ami!
magnifique! extraordinaire!
va te faire foutre!


Warley Matias de Souza.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

O presidente MP

Era uma vez, em uma República muito distante, o presidente MP.
— O salário mínimo está muito alto, presidente.
— Vou enviar uma MP para o Congresso e resolverei isso.
— As cotas estão tirando as vagas dos nossos filhos nas universidades, presidente.
— Vou enviar uma MP para o Congresso e resolverei isso.
— O trabalho escravo é proibido, que absurdo! Não pode ser, presidente!
— Vou enviar uma MP para o Congresso e resolverei isso.
— Há pobres no shopping! I-nad-mis-sí-vel, presidente!
— Vou enviar uma MP para o Congresso e resolverei isso.
— As minorias estão com muitos direitos, presidente.
— Vou enviar uma MP para o Congresso e resolverei isso.
— Fora, presidente!
— Nenhuma MP pode resolver isso.


Warley Matias de Souza.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Meninas e meninos

Os meninos são mais desamparados do que as meninas. Tenho dó dos meninos. Das meninas não, elas são mais seguras, mais fortes. Os meninos são frágeis. É que os meninos são criados para serem fortes e suportarem a vida. Já as meninas não. O que acontece é que as meninas recebem mais proteção e contato físico. Os meninos não. Existe uma crença cultural de que dar aos meninos carinho e proteção pode torná-los homens fracos. Os meninos são solitários. Os meninos precisam de mais carinho e proteção. As meninas não, elas já são fortalecidas pelo amor.


Warley Matias de Souza.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Implícito

Bebo o leite dos seus ovos.


Warley Matias de Souza.

Sorrisos de Monalisa

No rádio, na tevê, no cinema, na igreja, no discurso do candidato, nas redes sociais, eles são convencidos de que a felicidade está no consumo, no amor, nos filhos, no sexo seguro e safado entre quatro paredes, e na família. Em seus rostos, vemos sorrisos idiotas, uma felicidade parva. Namoram sem saber por que, fodem sem saber por que, casam-se sem saber por que, têm filhos sem saber por que, consomem sem saber por que e endividam-se sem saber por quê. Vivem em jaulas. Trabalho, família e religião. Não têm tempo para a leitura nem para o pensamento independente. E defendem que a literatura é uma coisa sem sentido e uma perda de tempo. 


Warley Matias de Souza.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Genialidade

Curiosidade e imaginação
― motores do mundo.

Trabalho árduo e constante
― fórmula da inspiração.

Porém, para os burros,
todo gênio é um idiota.


Warley Matias de Souza.

domingo, 17 de julho de 2016

closet

tinha um monstro no armário
saí
me apaixonei pelo mário
caí

lá fora só encontrei o vazio
plástico oco
boneco no cio
veneno ácido
delírio sem brio
arco-íris preto e branco

uma pomba branca vomitava sangue
pingos pingavam o vermelho

tinha um monstro no armário
e o medo do lado de fora

Warley Matias de Souza.

domingo, 26 de junho de 2016

O não amor

Para Théo Ortega.

Acredito no não amor à primeira vista, no não amor idealizado, no não amor verdadeiro, no não amor eterno, no não amor livre e tenho a convicção de que podemos não amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. O não amor é cego, egoísta e com rasgos de sublime. Podemos também morrer de não amor, pois o não amor é hiperbólico. E não venha cobrar de mim imaginação em minhas declarações de não amor, pois o meu não amor também é massificado e não se furta aos clichês. No mais, dizer não te amo é fácil, difícil é não amar de verdade e aceitar o não amado ou a não amada assim como ele ou ela realmente é, com defeitos e qualidades.


Warley Matias de Souza.

cheiro de flores

minha praia não é verso
é prosa
minha aula não é reta
é circunferência
bola imaginária rolando em infinito

não gosto de rima
busco a sintonia caótica
a surpresa me estranha

o afago não será esquecido
a memória estanca o relógio
cristalizados os olhares
rostos sorrisos mistérios

e no tempo das cinzas
saberei que algum dia
senti o cheiro de flores


Warley Matias de Souza.

quinta-feira, 3 de março de 2016

La mer

A vida é um mar de desejos...
Peraí!
Por que cargas d’água gostam tanto do mar os poetas?
La meeeeer...” tru-lu-lu-luuuu...
A vida é um mar de desejos...
Este poema não sai desse verso.
Enquanto tento escrevê-lo,
ouço Charles Trenet.
La meeeeer...” tru-lu-lu-luuuu...
E paro por aqui,
pois a vida é um mar de desejos
e insatisfação.
Fumo o meu cigarro proibido
enquanto ouço: “La meeeeer...” tru-lu-lu-luuuu...


Warley Matias de Souza.

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Coisas da vida

De manhã, o coisa brigou com a coisa por uma coisinha besta. À noite, porém, fizeram as pazes e foram coisar no quarto. Depois de fazer aquela coisinha, o coiso ficou satisfeito. Mas a coisa resolveu discutir coisinhas do relacionamento. Ela não queria ser coisificada, pois a coisificação é a prova cabal do desafeto. No entanto, as coisas não eram bem assim, replicou o coiso, pois não fizera nenhuma coisa para ser atacado daquela maneira. E, assim, brigavam por qualquer coisa e por coisa nenhuma. Entretanto, no final, tudo acabava em coisinhas íntimas. Até o dia em que se esqueceram de usar aquela coisa e tiveram duas coisinhas lindas. O coiso jr., desde criança, queria ser jogador de futebol. Já a coisinha irmã dele só queria se apaixonar por um coiso de perder o fôlego.

Warley Matias de Souza.

sábado, 25 de julho de 2015

Notívago

O vinho do terror avermelhava as faces
de ressentimentos, olhares e paladares.

A noite poderia ser encantadora
se não fossem os guinchos de ratos no cio.

Por momentos fixei o olhar na caricatura
da lembrança que eu queria esquecer.

Mantive a morte da ilusão
e perguntei então para quê.


Warley Matias de Souza.

terça-feira, 31 de março de 2015

Papel e látex

Os seres de papel e látex
Arrastam os seus pés descalços
Na lama dos tempos modernos.

O cálculo vermifica em suas sementes,
E a gelidez do ferro é líquido virtual.

Aquela dor que incomodava ainda
É gozo frio de animal mecânico.

E o cheiro da vida se confunde com o óleo
Que lubrifica estes meus olhos cansados.


Warley Matias de Souza.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A orgia das letras

Gê e jota faziam meia-nove
A fazia oral em cá
Cê metia fundo em dê
Dáblio e eme só no roça-roça
Espada contra espada
Ípsilon punhetava i
Zê caía de boca no buraco de u
E era enrabado por ele
O bê comia agá
Efe fazia cunilíngue em ó
Xis cortava por dois lados
Mas ficou chupando dedo
Erre quicava no oco de vê
Esse ficou então de quatro
E foi fodido por tê
Que também sibilava de tesão
O quê meteu a cabeça
Na reentrância de é
Enquanto ene e pê só olhavam...

Warley Matias de Souza.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Cegueira

Kafka me sorri seu lábio irônico e desfolha meu mistério:
a palavra-coisa, vazia, que me reforça a entrever o sublime.

Os olhos brilham de prazer e sorvem minhas palavras de delírio,
em movimento lento e calculado que invoca a incompreensão real.

E, neste sorriso de monge sereno, esconde-se a fragilidade órfã:
Orfeu odisseiando no inferno, e a misoginia imperando na terra.

Quero desejar o corpo vazio, mas o não desejo me impera,
enquanto a criança brinca nos lábios de Franz e do Dr. Frankenstein.

A barata e a criatura solitária, de mãos dadas e pés imundos,
querem ordenar a todos os deuses que para sempre se calem.

O sábado agora termina com o churrasco no meio da avenida
e ofusca o sorvete de domingo à beira da calçada.


Warley Matias de Souza.

sábado, 26 de abril de 2014

Pós-mundo

Os hippies ouvem música caipira
e ignoram a ignara alegria ofensiva
dos pretos pobres de cabelo crespo,
das pobres pretas de cabelo liso,
pela manhã de todas as manhãs.

Os hippies ouvem música caipira
de um programa popular de rádio,
e ignoram o velho sem um headphone,
em tão solitária desenvoltura
pela manhã de todas as manhãs.

Dizem que sou frio como ninguém,
que cago gelo e choraria pedra,
e que voyerizo o mundo inteiro,
e que sou um eunuco, pós-lascivo,
que sabe usar a língua como quê.

Mas deixe que entrem os gafanhotos
nesta minha cápsula ex-vazia
e devorem minha vasta memória
e meu sorriso branco e meus olhos
resvalados assim entorpecidos.



Warley Matias de Souza.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Punhesia

Só o tempo carcome,
transgride o meu corpo
na linguagem concreta,
que brota, jaz em mim,
imunda e estéril.

A musa de mil ombros,
largos e encurvados,
boca sedentaberta,
me incorpora a seco.

E faço punhesia,
A tingir-lhe os dedos.

Warley Matias de Souza.